Tratamento com Cetamina reduz Absenteísmo

As ausências dos funcionários sempre foram grandes desafios na rotina de qualquer empresa. Mesmo em casa, muitos trabalhadores não produzem. Muito por conta da saúde mental das equipes. A depressão se fez mais presente nos últimos dois anos.

Há duas formas de a depressão afetar a produtividade. Detalhando melhor, a primeira é o absenteísmo, que é faltar ao trabalho. E há o presenteísmo, que é ir ao trabalho, mas com rendimento prejudicado por conta de doença debilitante. Os estudos realizados em ambientes de trabalho mostram que até um quarto – número que chama a atenção – ou seja, 25% das pessoas sofrem de depressão.

O estudo que conta com dois brasileiros entre os autores, feito no Canadian Rapid Treatment Center of Excelence, ou, numa tradução simples, Centro canadense de excelência em tratamento rápido, pode explicar muito bem esse quadro. Os estudiosos falam sobre o peso da depressão unipolar e depressão bipolar, que afeta a produtividade, possui custos indiretos e diretos. E ela consta como uma das quatro doenças com maior tempo fazendo parte da vida do paciente.

Além do absenteísmo e presenteísmo, os autores ainda mostram que a depressão é associada com saída do mercado de trabalho precoce e uma grande barreira de retorno ao trabalho. Espera-se que tratar a depressão possa levar a uma reversão favorável deste quadro, já que o tratamento antidepressivo leva à melhora da produtividade.

Os autores do estudo ainda estabelecem que a relação entre trabalho e transtorno depressivo é complexa, pois a carga de estresse relacionado ao trabalho pode levar à depressão, ao mesmo tempo em que pessoas com trabalhos exigentes têm uma recuperação do quadro depressivo mais pronunciada. Podemos entender, portanto, que existe uma quantidade adequada, ideal, de trabalho e estresse.

Na parcela de trabalhadores com depressão maior, somente a metade procura tratamento médico, que pode melhorar a doença. Mas não necessariamente melhorar a performance no trabalho. Isso significa que o tratamento antidepressivo é necessário para o retorno ao trabalho, mas não é o suficiente para que o rendimento volte a níveis registrados antes do quadro depressivo.

Estudos mostram que antidepressivos à base de monoaminas, os antidepressivos orais tradicionais, não são suficientes para o tratamento de depressão resistente. Mesmo se o paciente atingir a remissão da doença, sintomas cognitivos ainda podem estar presentes. Cabe aqui uma importante pergunta, que faz total diferença no tratamento e no resultado dele: será que na verdade não foi tratado o quadro depressivo por completo?

Na introdução, o artigo ainda fala que a cetamina endovenosa já demonstrou eficácia antidepressiva rápida e robusta, mas não demonstrou ainda que pode levar à recuperação da força de trabalho na prática clinica. E é esse o resultado, tão esperado por cientistas e pacientes, que os pesquisadores foram buscar.

O tratamento antidepressivo com cetamina endovenosa pode trazer recuperação funcional no ambiente de trabalho?

A jornada se deu de maneira post-hoc. Isso quer dizer que foram avaliados prontuários após o ocorrido, e não feito um trabalho de acompanhamento para avaliar o desfecho.

Os indivíduos escolhidos para o artigo foram pessoas que procuraram o centro de excelência em Ontário, no Canadá, que é um ambulatório de infusão de cetamina para doenças psiquiátricas, que incluem depressão unipolar e bipolar, transtorno obsessivo compulsivo e estresse pós-traumático ao mínimo de resistência chamada nível dois que são pacientes que já tentaram ao menos duas estratégias via oral em doses e tempos adequados, sem sucesso.

A metodologia de infusão dos estudiosos é similar a que fazemos aqui no Brasil:  0,5 mg/kg infundidos em 40 minutos. E ajustam a dose, caso não haja resposta adequada. Mantém-se a medicação oral normalmente, por exceção de algumas medicações que podem interferir com a cetamina.

Para medir a evolução no ambiente de trabalho, os autores utilizaram o Sheehan Disability Scale durante a série de 10 infusões, que é uma escala de 5. Item que avaliam como a doença impactou as responsabilidades da pessoa no trabalho ou escola.

Para avaliar a depressão, utilizaram o QUIDS, o Quick Inventory for Depressive Symptomatology Self Report. Esse é um questionário de auto-avaliação, no qual a própria pessoa diz como está se sentindo. É preciso esclarecer que não é uma entrevista estruturada, como costumamos ver nos trabalhos científicos. Provavelmente por que esse trabalho foi feito no decorrer de uma clínica real, com pacientes reais e não com protocolos de pesquisa.

Os pacientes avaliados aqui freqüentaram o centro de infusão entre julho de 2018 e janeiro de 2020 e responderam o questionário sempre antes da infusão. Desta forma, a resposta da infusão, na fase de indução, foi bem conhecida, já que o paciente voltava ao centro independentemente da resposta. Mas na fase de manutenção, ele só retorna quando os sintomas pioram. O resultado imediato da infusão não é conhecido – e isso muda os resultados, como veremos adiante.

Foram analisados dados de 171 pacientes. A eficácia antidepressiva da cetamina foi expressiva, como já se esperava, indo de uma média de 18 pontos de gravidade (a escala vai até 27 pontos, sendo o pior mais alto) para 9 pontos em 7 infusões. Mas essa pesquisa não queria avaliar a depressão, e sim a força laboral.

Na escala que mede a dificuldade em trabalhar, o resultado das infusões também foi expressivo, tanto no absenteísmo – falta do trabalho – quanto no presenteísmo – estar no trabalho, mas não render.

As infusões reduziram tanto os dias nos quais as pessoas faltam ao trabalho, quanto nos dias não produtivos. Na escala que utilizaram a pontuação de 0 a 10, os pacientes foram de 4 para 2,5, quer dizer, as pessoas tiveram um aumento importante na produtividade, tanto em presença quanto em rendimento. Essa melhora na força de trabalho veio junto com a resposta antidepressiva promovida pelo tratamento.

Entre a fase de indução e a manutenção, houve uma piora na escala de força de trabalho. E os autores explicam que isso era esperado porque as pessoas fizeram novas infusões de manutenção quando os sintomas retornaram. Essa é a orientação do centro de infusão. Então, é esperado que se tenha uma piora. Outros trabalhos propõem que as infusões de manutenção sejam programadas e não sob demanda, para não ocorrer esse tipo de piora nas escalas.

Na discussão dos dados, os autores dizem que pacientes com diagnóstico de depressão unipolar e bipolar, que receberam cetamina endovenosa, mostraram uma melhora significativa na força de trabalho e uma redução importante no absenteísmo e presenteísmo após 10 infusões.  Relatam também um efeito antidepressivo sustentado com a manutenção das infusões endovenosas de cetamina pelo período estudado, que foi de 153 dias, em média.

Houve correlação entre o tratamento antidepressivo bem sucedido e o retorno da força de trabalho, independentemente do diagnóstico do paciente – se o quadro era de depressão unipolar ou bipolar.

Os autores mostram que, apesar de os pacientes que fizeram a infusão terem se mostrado resistentes ao tratamento com medicação via oral, as infusões endovenosas de cetamina proporcionaram um aumento na força produtiva, enquanto outras pesquisas indicaram que pacientes com resistência a tratamento via oral mostraram um efeito a longo prazo na força de trabalho.

As análises de tratamento com medicação via oral mostram que, quanto mais rápido há recuperação da depressão, menos tempo a pessoa se afasta ou perde produtividade no trabalho; e quando o paciente não responde a dois testes iniciais com antidepressivos diferentes, é improvável que, mesmo havendo recuperação da depressão, haja também recuperação dos efeitos sob a força de trabalho.

É provável também que a cetamina melhore a performance cognitiva no trabalho. Esse efeito em memória, atenção e linguagem já foi demonstrado com a cetamina.

A “cereja do bolo” – a parte mais importante do trabalho – vem agora. Os autores falam que o mais impactante no mercado de trabalho é o presenteísmo, quando a pessoa vai ao trabalho, mas não rende. Quem falta, pode ser substituído. Foi notável a melhora sustentada e robusta do presenteísmo, após as infusões endovenosas de cetamina.

Esses resultados se aplicaram a pessoas do mundo real, que foram encaminhadas para procurar uma clínica de tratamento. Não estamos falando sobre um protocolo rígido e estéril de pesquisa. Esse é um ponto forte do trabalho, mas também o limita, já que ele não foi desenhado para esse fim especificamente. Foi utilizada apenas uma escala de medida de força de trabalho, e não múltiplas.

A conclusão, o ‘tesouro’ do artigo, é que a infusão endovenosa de cetamina demonstrou uma redução significativa no absenteísmo e presenteísmo, e melhorou a funcionalidade no trabalho. Essa informação deve entrar na conta do custo-efetividade dos estudos sobre cetamina.

O resultado do estudo dos brasileiros no Canadá comprova que as infusões de cetamina melhoram a força de trabalho. Trata-se de um grande impacto positivo para as empresas e pessoas. Sem falar sobre um aspecto também importante: a qualidade de vida dos pacientes. A cetamina pode e deve ser considerada na hora em que os profissionais da saúde prescrevem medicamentos aos pacientes. Quanto antes isso acontecer, menor será o número de pessoas afastadas do trabalho, e menores as conseqüências para o paciente.

Deixo aqui um questionamento: será que as empresas não deveriam colocar a cetamina como obrigação de cobertura do plano de saúde? Isso geraria uma economia importante para a empresa.

*Tiago Gil é médico anestesista, fundador do Centro de Cetamina, membro ativo da ASKP3, American Society of Ketamine Physicians, Psychotherapists & Practitioners, pesquisador voluntário do IPq, interessado em anestésicos com ação antidepressiva rápida

Rodrigues NB, McIntyre RS, Lipsitz O, Lee Y, Subramaniapillai M, Kratiuk K, Majeed A, Nasri F, Gill H, Mansur RB, Rosenblat JD. The effect of repeated doses of intravenous ketamine on measures of workplace attendance and productivity in adults with major depressive and bipolar disorder: Results from the canadian rapid treatment center of excellence. Psychiatry Res. 2021 Mar 15;300:113860. doi: 10.1016/j.psychres.2021.113860. Epub ahead of print. PMID: 33836470

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